AmorAmor
Sempre foi fácil para ela…desistir. Poderia dizer-se que tinha uma intuição flamejante e certeira para o que não devia perseguir, ou talvez, ao invés de salivar com um belo prato, inebriava-se somente com a sensação do vinho. A sensação que o vinho lhe causava … devia ser a sensação que lhe deveria causar sempre, o amor.
Ela nunca quis ter uma vida vulgar.
Nunca quis um homem vulgar.
Odiava e amava repetidamente sentimentos, que a remetiam para a lembrança do passado, essa espécie de ódio romântico era talvez o seu custo, para que entrasse tão rapidamente na vida de alguém e fugisse com a mesma velocidade. Nunca lhe pareceu tão próxima a vontade de ter e a vontade de largar. Nunca esteve tão perto de perceber que o amor que julgamos sentir é por vezes um reflexo de uma expectativa do amor que um dia tivemos.
Todas as noites tinha o mesmo sonho. E esse sonho incluía-o sempre. Podiam passar anos, longos anos, que o cheiro e a pele não se rasgavam da sua cama. Quando se entranha a saudade, no momento certo, e se prolonga a sua dor por vários dias, meses, anos, começa a fazer parte de nós, veste-se connosco, alimenta-se do nosso pão, não morre na nossa boca, mas morde-nos o coração.
Todas as noites continuavam. Todas as noites existem e perduram… e ela continua a achar que ele voltará para retirar-lhe a roupa, lavar-lhe a pele, tirar-lhe o pão da boca e beijá-la apaixonadamente. Nunca lhe pareceu tão próxima a vontade de o ter e a vontade de , por fim, tudo largar.
Ela dizia-me: “ Ele não mais virá, é certo, mas alguém trar-me-á um dia aquilo que ele me trouxe”, e nesse dia não haverá nem espaço para fugir nem a intuição certeira para não perseguir, o medo simplesmente dissipar-se-á.
Ela nunca viverá uma vida vulgar. Porque nunca viverá um amor vulgar.
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